sábado, 5 de maio de 2012

A DISCUSSÃO É VÁLIDA - SEGURANÇA NAS ESCOLAS JÁ.

POLÍCIA NAS ESCOLAS?


Feizi M. Milani


Qualquer resposta rápida a essa questão corre o sério risco de ser simplista ou de generalizar situações específicas. Não pretendo oferecer soluções prontas, mas contribuir para uma reflexão que todas comunidades escolares precisam fazer. Se desejamos avançar para a efetiva busca de alternativas, é imprescindível questionar algumas premissas que explícita ou implicitamente fundamentam posturas e propostas a esse respeito.
1. A premissa da unicausalidade: a cada efeito corresponde uma causa; portanto, se a causa for eliminada ou removida, o efeito desaparecerá. A violência é, provavelmente, o fenômeno mais complexo com o qual a humanidade se defronta. Apresenta várias faces, dimensões e interfaces. São múltiplas as suas causas, fatores desencadeantes e agravantes. Seu enfrentamento exige atuação simultânea e integrada em diversos níveis, com distintas estratégias. Imaginar que a violência pode ser resolvida (apenas) com policiamento é ingenuidade.
2. A premissa da violência como um único fenômeno, tratado no singular. O mais apropriado é falar de "violências". Isso nos força a sermos mais específicos: afinal, de que tipo de violência estamos falando? Há uma grande diferença entre situações corriqueiras de brigas e rixas entre alunos, e o fato de a escola ser alvejada ou invadida por narcotraficantes. A primeira faz parte do aprendizado de controle emocional, convívio social e respeito às diferenças que deve integrar os objetivos da experiência escolar. A segunda pode, de fato, requerer (dentre outras medidas), a presença da polícia no portão da escola.
3. A premissa de que "o problema" está nos alunos. Essa é totalmente falsa. Primeiro, porque não foram eles que inventaram a violência. Ela está aí, nas injustiças sociais, na exclusão econômica, nas discriminações, nas telas da tevê, bem como na intimidade do lar, e, finalmente, nas relações de poder dentro da escola e na forma de muitos professores tratarem seus alunos. Segundo, porque se os estudantes fazem parte do problema, igualmente fazem parte da solução. Cabe nos questionarmos: por que resistimos tanto a reconhecer as potencialidades e capacidades das crianças e adolescentes? Por que tememos que eles assumam um papelprotagônico nas discussões e decisões que afetam a comunidade escolar? Se estamos avaliando a possibilidade de ter policiais na escola, cabe-nos perguntar a opinião dos alunos, ajudá-los a problematizar a questão e a analisar seus diversos aspectos.
4. A premissa maniqueísta, que divide os alunos entre "bons" (aqueles que não dão trabalho) e "maus" (aqueles que dão trabalho demais). A conseqüência disso é desejar uma escola que só tenha "bons" alunos; no intuito de viabilizar esse sonho, excluímos os "maus" – inicialmente, rotulando, discriminando, culpando e aplicando sanções e, finalmente, expulsando da escola. Na realidade, é possível identificar três grupos de alunos no que se refere à prática de atos violentos: uma pequena minoria que regularmente usa de violência; outra minoria que nunca pratica violência; e a vasta maioria que só faz uso de violência a depender das circunstâncias. Isso significa que, se criarmos ambientes inclusivos e situações de convivência pacífica, a maioria não encontrará motivo para fazer uso de violência. Esta passará a ser cada vez menos freqüente, até ser tornar uma exceção, por não mais fazer parte da cultura escolar, nem da linguagem interpessoal. O ambiente exerce uma poderosa influência sobre o ser humano, e isso ocorre também no aprendizado da paz. Por outro lado, se insistirmos em excluir os que são agressivos ou desobedientes, que alternativa lhes oferecemos? Freqüentemente, são transferidos de escola em escola, até que um dia vão parar em alguma FEBEM ou presídio.
5. A premissa de que a transmissão de conteúdo é o eixo central do processo educativo em sala de aula. Até quando insistiremos na tolice de que a capacitação técnica para inserir o jovem no mercado de trabalho é o objetivo final da escola? Quando é que os alunos receberão uma capacitação moral e emocional que os insira na vida? Essa obsessão "conteudista" impede a escola de transformar-se, bem como de contribuir para qualquer processo de transformação pessoal ou social. É urgente que o sistema educacional e cada educador reconheçam o ser humano em sua multidimensionalidade, que abrange o físico, o mental, o emocional e o espiritual.
6. A premissa de que cabe ao diretor/a resolver (sozinho/a) os problemas da escola. Melhor seria que os diretores se reconhecessem como líderes de uma comunidade escolar, a qual inclui alunos, professores, funcionários, dirigentes, famílias dos alunos e, finalmente, os vizinhos do prédio escolar. Aos diretores cabe sensibilizar, mobilizar, ouvir, articular, integrar, negociar, visando construir a unidade dessa coletividade. É impossível ao diretor, isoladamente, "resolver" o problema da violência. Os problemas da comunidade escolar precisam ser pensados, discutidos e enfrentados coletivamente.
7. A premissa da repressão como antídoto para a violência. Quanto mais confiamos na repressão, mais descuidamos da educação. Isso é verdade para a sociedade como um todo e para qualquer escola, em específico. Os melhores antídotos para a violência na escola são uma boa relação educador–educando, baseada em vínculos afetivos, diálogo, respeito mútuo e princípios de justiça, e um ambiente escolar de participação, valorização, alegria e flexibilidade. Isso demora mais e dá mais trabalho de que chamar a polícia, mas é exatamente essa a missão da escola. Se desistirmos dela, o que nos restará?
Uma séria revisão dessas (e outras) premissas é o primeiro passo a ser dado por aqueles que desejam participar da construção de soluções inovadoras, efetivas e sustentáveis

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